Sob o @DoutorMaravilha, o infectologista Vinicius Borges conseguiu centenas de milhares de seguidores, para os quais entrega conteúdo sobre saúde sexual de uma forma clara, descontraída, objetiva e sem tabus. Com escritório em São Paulo e especialização no tratamento de HIV, PrEP, IST’s, envelhecimento e saúde LGBT, ele se tornou um dos principais aliados da ciência sem preconceitos nas redes sociais.
O trabalho é essencial e urgente, principalmente levando em conta o público das redes sociais. A edição mais recente do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, apontou o registro de quase 40 mil novos casos de HIV no país e um crescimento de 6,9% no total de pessoas vivendo com a doença ao longo da última década.
Ao todo, mais de 68 mil pessoas ainda vivem com HIV no Brasil e, apesar de termos eliminado a transmissão vertical (de mãe para filho) da doença, são os jovens pretos de 20 a 29 anos os que representam a maior parte dos novos casos.
Durante a 30ª Parada do Orgulho LGBTI+ de São Paulo, Vinicius Borges vai botar a capa de Doutor Maravilha no Camarote Pride e, a convite da Blanver, expandir o alcance da informação acessível, responsável e baseada em evidências para quem estiver curtindo a Parada por lá.
Antes, ele passa aqui pela Híbrida para conversar sobre PrEP, HIV, chemsex, prevenção e tratamento de ISTs.
5 perguntas sobre saúde sexual LGBTQIA+ com o Doutor Maravilha
HÍBRIDA: Por que o Brasil conseguiu eliminar a transmissão vertical do HIV, mas ao mesmo tempo vê o aumento de casos entre os mais jovens? O que falta para diminuir a taxa de transmissão entre essa parte da população?
VINÍCIUS BORGES: A eliminação da transmissão vertical é uma das maiores vitórias da saúde pública brasileira. Isso aconteceu porque o país investiu em testagem durante o pré-natal, tratamento gratuito e acompanhamento das gestantes.
Já entre os jovens, o desafio é diferente. Nós vivemos uma geração que cresceu sem testemunhar o impacto devastador da AIDS nas décadas de 1980 e 1990. Ao mesmo tempo, continuamos tratando sexo como tabu.
Falta educação sexual baseada em evidências nas escolas, diálogo aberto dentro de casa e formação adequada para profissionais de saúde. Educação sexual não incentiva ninguém a fazer sexo; ela ajuda as pessoas a fazer escolhas mais seguras quando decidirem iniciar sua vida sexual. Se queremos reduzir novas infecções, precisamos tratar educação sexual como prioridade de saúde pública.
Falta educação sexual baseada em evidências nas escolas, diálogo aberto dentro de casa e formação adequada para profissionais de saúde
H: Estamos próximos de completar 10 anos desde que a PrEP chegou ao Brasil. Como você avalia as mudanças que o remédio fez na vida sexual dos brasileiros e, consequentemente, na prevenção contra o HIV?
VB: A PrEP mudou a história da prevenção do HIV no Brasil.
Pela primeira vez, muitas pessoas, especialmente homens gays, mulheres trans e outras populações historicamente mais afetadas pela epidemia, passaram a ter uma ferramenta extremamente eficaz para se proteger. Para muita gente, essa foi a primeira experiência de viver a sexualidade sem o medo constante do HIV. Eu mesmo vivi isso e vejo no consultório diariamente.
Além disso, a PrEP aproximou milhares de pessoas dos serviços de saúde. Quem usa PrEP costuma fazer exames regularmente, atualizar vacinas, conversar sobre sexualidade e receber acompanhamento contínuo. Isso criou uma nova cultura de prevenção muito mais ampla do que simplesmente tomar um comprimido.
H: Aproveitando, muita gente acredita que, por tomar PrEP, está protegido do HIV e, logo, não precisa se preocupar com outros tipos de ISTs. Quais riscos estão associados a esse comportamento, considerando outros vírus e bactérias sexualmente transmissíveis? Quais os mais graves?
VB: A PrEP protege contra o HIV, mas não protege contra sífilis, gonorreia, clamídia, hepatites virais, HPV e diversas outras infecções sexualmente transmissíveis.
Mas existe uma ideia equivocada de que usuários de PrEP simplesmente abandonam todos os cuidados. Na prática, os estudos mostram que essas pessoas costumam se testar com mais frequência, atualizar vacinas e procurar atendimento mais cedo quando surge algum sintoma.
As ISTs sempre existiram e continuarão existindo. O ponto central não é criar medo, mas garantir acesso ao diagnóstico, ao tratamento e ao acolhimento.
As infecções mais preocupantes são aquelas que podem causar complicações permanentes quando não diagnosticadas, como sífilis, hepatite B, hepatite C e infecções por HPV associadas ao câncer. Felizmente, hoje dispomos de estratégias muito eficazes de prevenção, rastreamento e tratamento.
H: Capitais como Rio e São Paulo têm uma ampla oferta de tratamentos e fácil acesso a informações quando comparadas com cidades do interior do Brasil. Como mudar essa realidade? Acredita que é falta de oportunidade ou de comunicação?
VL: É uma combinação dos dois fatores.
Ainda existe uma enorme desigualdade na distribuição de serviços especializados, mas também enfrentamos um problema de comunicação e capacitação profissional. Muitas pessoas no interior encontram dificuldades para acessar informações atualizadas sobre HIV, PrEP, ISTs e saúde sexual.
Além disso, o tabu em torno do sexo costuma ser ainda mais forte em cidades menores. Muitas vezes a pessoa tem receio de procurar atendimento por medo de julgamento ou exposição.
Precisamos investir em formação profissional, telemedicina, campanhas educativas e linguagem acessível. A informação precisa chegar onde as pessoas estão.
H: Temos visto o crescimento do chemsex nos últimos anos, principalmente em capitais. Existe alguma forma de se prevenir nessas situações? O que alguém que passou por esse tipo de exposição ou outros comportamentos de risco deve fazer para garantir que está saudável?
VL: A primeira coisa é abandonar a ideia de julgamento sobre uso de substâncias.
Ninguém cuida melhor da própria saúde quando se sente culpado ou discriminado
As estratégias mais eficazes passam pela redução de danos. Isso inclui acesso à PrEP, testagem frequente, vacinação, DoxyPEP quando indicada, suporte em saúde mental e acesso a profissionais capacitados para conversar sobre sexualidade sem preconceitos.
Eu costumo dizer que essas populações não são vulneráveis por natureza, elas são vulnerabilizadas por fatores sociais, estigma e falta de acesso ao cuidado. E é essa a população que eu atendo.
Quem participou de uma situação de risco deve procurar avaliação médica, realizar os exames adequados, atualizar a prevenção e construir um plano de cuidado individualizado. E se está afetando setores da vida, com certeza precisa de suporte de saúde mental.







