Waldirene Nogueira, ícone LGBTQIA+ reconhecida como a primeira mulher trans do Brasil a passar por uma cirurgia de redesignação sexual, morreu nesta terça-feira (19), aos 80 anos, em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo. A informação foi confirmada por familiares e pela funerária responsável pelo velório. O corpo será levado para Lins, no interior paulista, cidade onde ela nasceu e construiu parte de sua trajetória.
A morte de Waldirene encerra um capítulo fundamental da história da comunidade LGBTQIA+ e, principalmente, da população travesti e transexual no país. Em dezembro de 1971, ela conseguiu fazer sua cirurgia de redesignação sexual no Hospital Oswaldo Cruz, na capital paulista, em um procedimento conduzido pelo cirurgião plástico Roberto Farina. À época, o Brasil ainda tratava a transexualidade sob forte estigma social, jurídico e médico, e o caso provocou repercussão nacional.
O procedimento de Waldirene foi realizado mais de 40 anos depois de Lili Elbe, a Garota Dinamarquesa que fez a primeira cirurgia de redesignação sexual do mundo, ter começado seu processo transitório. Antes disso, a brasileira passou cerca de dois anos em acompanhamento com especialistas, parte de um tratamento contínuo que até hoje é obrigatório antes e depois de qualquer intervenção cirúrgica.
Mesmo assim, Waldirene Nogueira teve sua identidade de gênero alvo de questionamentos públicos e institucionais à época. O Instituto Médico Legal (IML), inclusive, chegou a ser acionado para verificar se ela “era mulher”, enquanto seus documentos ainda registravam o nome masculino atribuído no nascimento. A retificação só veio décadas depois, em 2010.

Farina foi processado por “mutilação genital” e a Justiça de São Paulo chamou Waldirene de “eunuco estilizado”. Ainda assim, os dois lutaram contra o estigma, ao mesmo tempo em que ela recolhia cartas de apoio entre parentes e amigos para o cirurgião.
O legado de Waldirene Nogueira
A trajetória de Waldirene atravessou décadas marcadas pela invisibilidade e pela marginalização da população trans brasileira. Sua história passou a ser lembrada como símbolo de resistência em um período no qual pessoas trans eram frequentemente excluídas de direitos básicos, afastadas do mercado de trabalho formal e submetidas à violência cotidiana.
Dez anos depois, a ditadura militar continuou perseguindo pessoas como Waldirene através dos “rondões”, que levaram mais de 1.500 travestis e transexuais à prisão só em São Paulo.
Nos últimos anos, o reconhecimento de sua importância histórica cresceu entre movimentos LGBTQIA+, pesquisadores e produções dedicadas à memória trans no Brasil. Mais do que pioneira em um procedimento médico, Waldirene tornou-se referência para diferentes gerações que encontraram em sua história um marco de coragem e afirmação identitária.
Aos 80 anos, ela morava em Lins, onde fez fama como maquiadora e esteticista, sempre elogiada pela cidade. Waldirene também era presença fixa nos desfiles de carnaval da cidade.
A luta de Waldirene Nogueira foi tema do documentário Um corpo para Waldirene, dirigido por Rafael Farina Issas e Luíza Zaidan, e da reportagem ‘Monstro, prostituta, bichinha’: como a Justiça condenou a 1ª cirurgia de mudança de sexo do Brasil, publicada pela BBC e premiada com o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.
O velório acontece nesta quarta-feira (20), a partir das 17h, no Memorial Santa Izabel, em Lins. O enterro está previsto para as 7h, no Cemitério da Saudade.